Abraão
Por vezes a religiosidade impõe-se-me como uma intromissão, uma pedra-de-tropeço, um constrangimento. É como se ocupasse espaço e tempo que eu preferiria utilizar de outro modo, em outras atividades. É quando o sentido do religioso, a espiritualidade, não passam de um exercício prático de rotinas a que me obrigo. Digo: é como uma atividade física (um desporto) ou como Arte (um hobby) ou como um exercício intelectual, uma filosofia. Digo: é um recurso... Mas não. A espiritualidade, a experiência religiosa, está em mim como a própria vida. Há muito que não se trata de uma questão de opção, ou de "igreja", de instituição. Há muito que não é, apenas e só, a adesão a um código de conduta, a uma mão-cheia de princípios. Sou eu próprio, na minha condição humana, incapaz de escolher a cor dos meus olhos, o envelhecimento dos meus cabelos. Sou como Abraão, uma criatura extasiada diante de um céu imenso, de estrelas ou de um areal extenso e leve como tudo o que é eterno. Diante de uma promessa que motiva e mobiliza, absolutamente. Entregue, confiado.