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vive em mim

já não sou eu que vivo

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Regresso à Serra do Pilar

"O Livro dos Atos dos Apóstolos é o livro do Tempo Pascal, por excelência, mas os relatos dos evangelhos que ilustram as manifestações de Jesus ressuscitado, aos que lhe foram mais próximos e a quem Ele chamou a testemunhar, são de uma riqueza catequética que convocam todos os nossos sentidos: a visão, a audição, o cheiro, o sabor... Assim acontece com a proclamação do evangelho de hoje. Aqui e agora, podemos sentir a Sua presença, tocar essa realidade física em que Jesus se moveu e agiu e que, por consequência, nos incentiva, hoje, a mover e a agir!

No episódio deste domingo, por exemplo, percebemos como, após três anos de intensa formação e, sobretudo, de uma experiência emocional única, o quotidiano daqueles pescadores, da primeira hora, tendia para um regresso à normalidade. Nesse regresso, porém, nenhum resultado aparente conseguem alcançar! Não é esta, também, a nossa experiência de normalidade? Uma espécie de frustração permanente por resultados medíocres? É quando Alguém surge no horizonte das nossas vidas!  (E é sempre o Senhor que toma a iniciativa...). Não O reconhecemos imediatamente. Ele desafia as nossas fraquezas com palavras de incentivo: "Vá lá, não desistas! Tenta outra vez; agora para o outro lado..." À distância a que estamos, mal O deslumbramos; Ele é, por enquanto, apenas um vulto. Mas João, o "discípulo amado", imerso ainda na experiência da paixão, faz como que uma profissão de fé: "É o Senhor!". Di-lo porque O reconhece pela voz, mas também pelo resultado da faina, tão bem-sucedida que, como sugere o texto, arriscamos romper as redes... Pedro, intempestivo, parte em direção a Jesus. Na margem do Lago de Tiberíades, por entre o cheiro intenso da brisa húmida, eleva-se o fumo do carvão incandescente. Por entre a excitação dos pescadores, escutamos o murmúrio da ondulação suave, o crepitar do fogo na praia e do peixe no assador. Ao redor desta fogueira, Jesus toma o pão, alguns peixes assados e dá-lhes de comer. Dá-nos de comer. Surgem, na nossa mente, decisivos momentos dos evangelhos: o milagre da multiplicação dos pães, os gestos na última ceia, o encontro do ressuscitado com os caminhantes de Emaús. "Felizes os que O reconhecem ao partir do Pão!"

Se compararmos estas manifestações do Deus Vivo, com as que esperamos experimentar nas nossas liturgias, em ambientes fechados e ritualizados, logo percebemos que, também aqui, "o Espírito sopra onde quer!" (João 3:8) Porque Ele não se esconde por detrás de nuvens de incenso, nem a Sua presença depende dos gestos coreografados de um qualquer sacerdote. Antes vive e Se expressa nas coisas e nos dias comuns, onde ninguém O vê, senão pelo olhar, carente e humilde, dos "limpos do coração" (Mateus 5:8).

Quando aceitei o convite do Padre Arlindo para vos dirigir estas palavras, ocorreram-me, de imediato, duas circunstâncias litúrgicas. Lembrei-me, desde logo, do refrão de um cântico que proclama "Senhor, Tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração" (Salmo 90:1) e, de seguida, uma imagem mais sensível: na escuridão da abertura da Vigília Pascal, a recitação do precónio pascal; como no tempo em que o conhecimento se transmitia pela oralidade, um jubilado recita o poema que o discípulo retém e assim toma conhecimento da história de um povo. Desejei cumprir com este desígnio, para vos dizer que é verdade, que também eu por aqui passei, por estes bancos, por estas paredes, por estes móveis, mas, sobretudo, por esta experiência palpável de escuta, de oração, de partilha, de comum-unidade. Sim, "nós somos testemunhas destes factos, nós e o Espírito Santo que Deus tem concedido àqueles que Lhe obedecem» (Atos 5:32).

Quisera que, no final deste encontro, pudéssemos dizer como os discípulos atónitos: "Vimos o Senhor!" (João 20:25). E porque de uma refeição se tratou, e porque de uma refeição se trata, deixo-vos com o convite do salmista, para a Eucaristia que prossegue: "Saboreai e vede, como o Senhor é bom!" (Salmo 33:9)".

Homilia proferida, na "Comunidade Cristã da Serra do Pilar", a 1 de maio de 2022.
Terceiro Domingo do Tempo Pascal.

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